Intoxicação por dicumarínicos (veneno dos ratos)

 

Os dicumarínicos ou rodenticidas são venenos com elevada toxicidade, facilmente obtidos e amplamente utilizados, para eliminar roedores. A maioria contém metais pesados e anticoagulantes na sua composição, tornando-se perigosos para os seres humanos e para os nossos animais de companhia. A intoxicação pode ocorrer após a ingestão directa do veneno ou através da ingestão de um rato vivo ou morto que tenha contactado com o veneno previamente.

Estes venenos provocam uma coagulopatia, pois têm uma ação anticoagulante por conterem antagonistas da vitamina K (varfarina, difacinona, bromadiolona, entre outros), que vão inibir os fatores de coagulação dependentes desta vitamina (II, VII, IX e X), causando sangramento generalizado e alterações em vários sistemas orgânicos.
O periodo que vai desde a ingestão até ao aparecimento da sintomatologia pode variar, dependendo do tipo de anticoagulante utilizado na produção do rodenticida, da quantidade de veneno ingerida, e da reação do próprio animal. Embora a distribuição seja lenta, a absorção é rápida, e após 12 horas da ingestão pode alcançar o pico plasmático máximo.
                       

                               

Os sintomas mais frequentes incluem vómito com ou sem sangue, fraqueza, cansaço, mucosas pálidas, anemia e dificuldade respiratória (por hemorragia na cavidade torácica), hematomas externos, dilatação do abdómen (por hemorragia abdominal), urina com sangue (hematúria), sangramento nasal (epistaxis), pela vagina, ouvidos, etc, podendo ocorrer morte súbita.  A morte súbita pode ocorrer como resultado da hemorragia pericárdica ou do Sistema Nervoso Central.

O diagnóstico na maioria das vezes é feito pela história relatada pelo dono – viu o animal comer, encontrou o saco vazio, colocou o produto em local acessível,nos sinais clínicos que o animal apresenta e no resultado obtido através de exames complementares que nos ajudam a interpretar e identificar grande parte da sintomatologia e do estado do animal. Estes exames complementares incluem: provas de coagulação, rx, ecografia, hemograma ou análises bioquímicas.                

Quanto ao tratamento, independentemente do quadro, a administração de vitamina K1 e aconselhada e deve manter-se monitorização sobre os fatores de coagulação. A terapia de suporte com fluidoterapia pode ser sempre considerada, bem como outros procedimentos, de acordo com o tempo de ingestão e gravidade. Se o rodenticida for ingerido minutos ou poucas horas antes da apresentação, a indução do vómito e a administração de carvão ativado é essencial. Em quadros mais agravados terapia para combater o choque ou transfusões sanguíneas podem ser preponderantes. Após estabilização do paciente este necessita sempre de continuar a ser monitorizado, e de ir repetindo alguns dos exames complementares para se conseguir avaliar da forma mais correcta o seu quadro evolutivo, sendo por isso proposto o internamento.
O prognóstico de um animal envenenado depende sempre da quantidade e do tipo de veneno ingerido, do tempo que passou desde que foi ingerido, bem como da reacção do próprio animal.

Se viu ou suspeita que o seu animal ingeriu veneno de rato ou algum roedor, contacte de imediato o seu Médico Veterinário.
Ao dirigir-se à clínica, informe que tipo de veneno foi ingerido e se possível leve consigo a embalagem do produto. O sucesso do tratamento vai depender da rapidez do diagnóstico, aumentando assim as probabilidades de sobrevivência do seu animal de estimação.

 

Drº Ricardo Baptista – Médico Veterinário, Director Clinico da CVST – Centro Veterinário de Santo Tirso e Centro veterinário de São Tomé